Domingo, Outubro 04, 2009

Homenagem a Fernando Peixoto


Caros Amigos,


No próximo dia 31.10, pelas 21.30h, no Auditório Municipal de Gaia, a Associação das Colectividades de Gaia vai homenagear o meu pai, evocando todo o seu percurso de vida.

Será um espectáculo com música, teatro e poesia com textos de sua autoria.

Para reservar o seu convite, envie urgentemente um email para helena_peixoto@sapo.pt, com o número de convites que pretende reservar.

Melhores cumprimentos,


Helena Peixoto

Sexta-feira, Abril 24, 2009

CONDECORAÇÃO A FERNANDO PEIXOTO


Dia 25 de Abril, pelas 10.30, no Pavilhão Municipal, junto ao Parque da Lavandeira em Vila Nova de Gaia, Fernando Peixoto vai ser condecorado a título póstumo com a medalha de Mérito Municipal Classe Ouro,por militância cívica.

Quinta-feira, Abril 23, 2009

O CRAVO DE ABRIL


Em Abril fui criança novamente:
Sorri, brinquei, cantei sem me cansar,
Aprendi com os outros a sonhar
Descobrindo o Futuro, ali à frente.

A voz, ergueu-se harmoniosamente
Na canção que aprendemos a cantar:
Da gaivota, teimosa, que a voar
Pelos céus passeava alegremente.

Brilhava o sol de Abril, a Primavera
Corrria p’ra acenar um tempo novo
Repleto de esperança e de utopia.

Por fim, na minha terra, florescera
Um novo sonho: o cravo deste povo
Que em Abril se encontrava e renascia.

25 DE ABRIL DE 2004


Fernando Peixoto

Sábado, Março 08, 2008

NÃO, MEU AMOR



"Não, meu amor... Nem todo o corpo é carne" - DAVID MOURÃO-FERREIRA


Não, meu amor, também és fogo
na forma como incendeias os sentidos.
Não, meu amor, também és raiva
onde espojo meu corpo em suor.
Não, meu amor, também és água
a dessedentar minha língua
seca de silêncio e de vómito.
Não, meu amor. Não és apenas carne,
nem apenas caule, nem apenas fruto,
mas sobretudo a seiva
de que se alimenta a minha ânsia de fuga.
Não, meu amor, também és mulher,
a parte que não existe em mim, homem !
"Não, meu amor... Nem todo o corpo é carne".
Às vezes é uma viagem
ao interior uterino da criação
ao Imo da Vida !
FERNANDO PEIXOTO

ACORDEI COM A ARAGEM DO TEU ROSTO

homenagem à mulher no dia 8 de março de 2008


Acordei com a aragem do teu rosto
dum sono prolongado e entorpecente
e na seara loira dos teus cabelos
onde repousa ainda o sol de Agosto
passearam meus olhos inocentes
à procura da certeza de estar vivo.

Caminhei pelo trilho dos teus passos
rumo ao oceano dos teus olhos cor de anil
e embalado por instantes nos teus braços
respirei finalmente o ar de Abril

Hoje que arremesso os olhos sobre a planície
desenho novas cores nesta paisagem
e se caminho em frente decidido
é porque és mais que um sonho ou uma miragem
é porque és carne és terra és a palavra
és a seiva autêntica e sensível
ao alcance destas mãos com que afago
tua boca quente e apetecível

É porque és mulher inteligência
és o outro pulmão com que respiro
e parte do suor com que transpiro
nesta procura permanente de estar vivo

Acordei com a aragem do teu rosto
dum sono prolongado e entorpecente
e recuso-me de novo a adormecer
porque quero ser eu e ao teu lado
retomar nos dentes a loucura
redescobrindo a fome de viver
para beber a resina da ternura
que a tua boca tem pra me oferecer
e partilhar contigo esta frescura
da manhã que acaba de nascer

Partamos Amor à descoberta
Dum mundo inteiro à nossa espera
enquanto dura a Primavera



FERNANDO PEIXOTO

Terça-feira, Fevereiro 05, 2008

MEMÓRIA DE UM SOLDADE DE VOLTA DA GUERRA


Regressei à minha terra
vindo de Alcácer-Kibir.
Trouxe a memória da guerra
nesta forma de sentir
a morte por todo o lado
uivando como um coiote.


Trago a memória da morte
no sonho despedaçado.


Trouxe a memória dos gritos
dos corpos semi-desfeitos,
trago a memória dos mitos
de orgulhos e preconceitos.


Trouxe nos olhos poentes
e horizontes esfumados
dos jovens ludibriados
por mentiras indecentes.


Trouxe comigo a derrota,
a mentira, a cobardia
e a miséria que suporta
um resquício de agonia.


Trouxe a mágoa reflectida
no rosto de uma mulher
que já não sabe o que quer:
— se quer a morte ou a vida.


Trago a saudade no peito,
trago uma esperança adiada,
trago esta forma sem jeito
de saudar a madrugada
no filho que irá nascer
e nos teus braços dormir,
no cravo que hás-de parir
quando a Paz reverdecer.











Não veio comigo o Rei.
Em Alcácer nunca o vi
e no tempo em que lutei
nunca ao meu lado o senti.


Estava longe, parece,
longe de mim, da Verdade.

Longe de mim, na Cidade
o Rei jaz morto e apodrece.


Vendo bem, não trouxe nada
do muito que então levei.
Trouxe a memória pesada
da vergonha que encontrei
e que regressa comigo:
— o povo que conheci
e contra o qual me bati
não era um povo inimigo!

FERNANDO PEIXOTO

A UMA MULHER DO MEU PAÍS


Abre as asas, tu que não desistes

de encontrar as asas nos teus braços

e com eles descobrires novos espaços.



Abre as asas, tu que não desistes

de rasgar, no tempo, o calendário

que preenche, em cada dia, o teu diário.


Abre as asas, tu que não desistes

de mostrar que és viva, e continuas

percorrendo, serena, as mesmas ruas.


Abre as asas, tu que não desistes

de mudar a face da cidade

em ímpetos de arrojo e de vontade.


Abre as asas, tu que não desistes

de enfrentar o sol que te encandeia

e quebra a tua última cadeia.



Abre as asas, amor, e segue em frente,

voa sempre, voa sempre, sem cansaço,

e ensina a voar toda esta gente

que continua especada olhando o espaço.


FERNANDO PEIXOTO

Sábado, Janeiro 12, 2008

noite


Noite que te interpões de permeio
entre a queda do poente
e o despontar da alvorada
Noite em que me perco e me enleio
numa teia entorpecente
tecida pela madrugada

Noite de náufragos à deriva
de tempestade escondida
nos gelos da solidão
Noite a do silêncio que abriga
uma angústia ressequida
nas cinzas duma canção

Noite companheira da incerteza
catapulta de ilusões
manto de sonho e de cio
Noite a fogueira sempre acesa
alimentando os vulcões
dos corpos em desvario

Noite onde germinam conversas
onde as palavras se perdem
em sílabas murmuradas
Noite o centro de mil promessas
que se compram que se vendem
e outras tantas adiadas

Noite tempo lento dum percurso
que vai do meu corpo ao teu
em dádivas de ternura
Noite o derradeiro recurso
de alguém que tal como eu
vive da noite a aventura

Noite com ela vens de mansinho
à alcova dos meus segredos
que vou partilhar contigo
Trazes da noite todo o carinho
que desliza entre os meus dedos
e adormeces comigo


FERNANDO PEIXOTO

SUJIDADE...


(imagem retirada de www.mgrande.com/.../pobresNT_.jpg)


As crianças sujas
tisnadas e sujas
descalças e sujas
ramelosas e sujas
magras e sujas
desgrenhadas e sujas
analfabetas e sujas
descobrem o orgasmo
nos portais sujos
escuros e sujos
banhando-se no sémen competitivo
crescendo depressa de mais


ai Deus
e ué ?


FERNANDO PEIXOTO

Segunda-feira, Janeiro 07, 2008

VOLÚPIA


Só me sinto inteiro
quando me sinto
extensão redonda do teu corpo
continuação do teu sorriso
eco das tuas palavras
prolongamento dos teus dedos


Na miscigenação dos nossos sonhos
escorre a noite entre os lençóis suados


Na singela matemática dos nossos corpos
nus
assumimo-nos como número-primo



fernando peixoto

TEATRO DA SOLIDÃO


(imagem de Hugo Dias)

É difícil estar só, com tanta gente
Que ao nosso lado aumenta a solidão!
Saber que estar só é ser diferente,
É ser apenas um na multidão!

É difícil sentir que, de repente,
Somos menos que um átomo: um neutrão,
Um fogacho de luz, um comburente
Do cosmos gigantesco em combustão.

Difícil é saber qual o papel
Que vamos na Vida interpretar
Na plateia que iremos enfrentar.

Buscamos no outro a sua pele,
Assumimos de um outro a dimensão
Pra ser o que não somos: Ilusão!


Setembro – Funchal 2006


FERNANDO PEIXOTO

Segunda-feira, Dezembro 31, 2007

EU QUERO SER D. QUIXOTE



Vou desfiando o rosário
dos anos que vão passando.
Viro a folha ao calendário:
doze meses me esperando
acalentam novos sonhos
com dias bem mais risonhos
que os que se foram gastando
na escalada da Vida
em que sempre fui teimando.


As cores com que me acenam,
as promessas de bonança,
não serão peças que encenam
no Teatro da Esperança?
Não será o Novo Ano
mais três actos de ilusões
nesta comédia de engano
que traz, ao cair do pano,
consigo mais frustrações?


Sei que parto em desvantagem
imitando D. Quixote
pra esta incerta viagem
em busca de melhor sorte,
sei que a força é desigual
lutando contra a voragem
dos que se aliam ao Mal
para obterem vantagem.

Mas hei-de encontrar coragem
para saber distinguir
nos mistérios dos caminhos
as visões alucinantes
com que me irão confundir:
― o que vejo são gigantes
que me tentam iludir
ou não passam de moinhos?

Vou evitar enredar-me
nas malhas de nova teia
e fugir para furtar-me
ao desejo que estonteia
de, parado, extasiar-me
nesse canto de sereia
que tentará afogar-me
roubando-me a Dulcineia.

Se quero Sancho ao meu lado
é porque a sua sageza
é o saber validado
pela própria Natureza:
é saber equilibrado
a suster o desvario
chamando-me à razão
quando dela me desvio.


Rocinante há-de ensinar-me
nessa doce pacatez
a caminhar devagar:
- cada passo em sua vez.
E nessa sabedoria
que só a idade acrescenta
descobriremos a via
de que a Vida se alimenta.


Seguirei, pois, os caminhos
(por vezes os mais distantes)
que me segrede a Razão.
Que eu prefiro ver moinhos
e dar combate aos gigantes
que me toldam a visão.




Se há algo que me alicia
a tomar a decisão
de frente e de forma audaz
é não crer que é utopia
dar aos outros minha mão
para alcançarmos a Paz.
Nesta crença me renovo
E me torno inda mais forte:




Quero mesmo um ano NOVO!
EU QUERO SER D. QUIXOTE!



31 de Dezembro de 2007
FERNANDO PEIXOTO

PASSEANDO NO LITORAL DO ESPANTO




Colher a sensação das arestas redondas
das areias escaldantes das minhas dúvidas
respirar a maresia das ideias
que transpira na crista das ondas
das minhas incertezas súbitas
enormes rumorosas e cheias

Provar os sabores salgados
da espuma na minha mão
junto à proa do navio
e respirar os ventos desgarrados
que se espraiam na rebentação
e sentir na pele um arrepio

Impelido por ventos de desnorte
sentir na carne o desconforto
de ter um mundo imenso à minha frente
e um silvo de silêncio como a morte
a lembrar-me que está longe o porto
no oposto preciso do nascente


Penetrar no horizonte distante
nessa linha que me afasta de ti
e perceber a impotência dos braços
que me sustêm na orla hesitante
que ainda me retêm aqui
incapaz de quebrar meus próprios laços

desafiar Neptuno o deus gigante
que roça os rochedos agressivos
impelido por Zéfiro implacável
e pressentir naquele mesmo instante
que há medos de tal forma possessivos
que a vontade se torna vulnerável

Deitar-me no areal já ressequido
e queimar-me no sol do meio-dia
sonhando que é possível decifrar
o doce labirinto entretecido
nas curvas do teu corpo a melodia
que nunca me canso de escutar


e ver a tua imagem reflectida
em múltiplas vagas de frescura
que se estendem na areia do estuário
só que tu estás sempre de partida
e eu fico roendo esta amargura
de estar cada vez mais solitário

Talvez sejas somente uma quimera
um sonho uma ilusão uma utopia
ou quem sabe a minha barca de Caronte
Navegando ao longe à minha espera
te encontrarei por certo qualquer dia
banhada pelo sol no horizonte

Dia a dia porém eu continuo
sempre vinculado à mesma esperança
de escutar nas ondas o teu canto
e por isso prossigo e acentuo
meus pés sobre a areia numa dança
passeando no litoral do espanto


FERNANDO PEIXOTO

SÓ A NOITE




Só a noite me escuta e acaricia

os cabelos pesados da neblina

que, de súbito, se abate na cidade.



A noite avança e penso em ti

como a única estrela que ilumina

o céu imenso, inteiro, escuro,

pedaço de universo em que procuro

o teu rosto astral de claridade.



Mas em vez do teu rosto, eu só descubro

o canto nocturno destes medos

que se escondem no cofre dos segredos

e se expandem em nuvens de saudade.




Fernando Peixoto

Sábado, Dezembro 22, 2007

O EVANGELHO SEGUNDO O POETA


Intencionalmente, este poema contém 33 estrofes, tantas quantos os anos de vida de Jesus.

Esta é a «minha» visão sobre Ele.


De ti pouco mais sei do que o que li

E apenas pelo que outros me disseram

Mas nunca te escutei, sequer te vi

Nos livros que os antigos escreveram.


E de tudo o que retive e que aprendi

Recordo alguns prodígios que fizeste.

Mas depois, reflectindo, concluí:

Quem foste afinal, Tu? E o que disseste?


Nenhum dos escritores te conheceu,

Nenhum deles jamais te acompanhou.

Nem ao certo se sabe onde nasceu

O Jesus que até hoje a nós chegou.


Por isso é que aprendi a duvidar

E daquilo que li pouco me importa.

Duvidando aprendi a acreditar

Porque ter Fé, sem dúvida, é Fé morta.


Que fizeste, tu, Amigo? Francamente!

Como pudeste cair em tanta asneira?

Tu, que tiveste o mundo à tua frente

E o deixaste cair desta maneira?


Tu, que divino sempre te julgaste

E como filho de Deus te assumiste,

Tu, que a própria família abandonaste

E os míseros aos ricos preferiste,


Que surgiste, já homem, sem sabermos

Que fizeste na tua adolescência,

Que caminhos tomaste, sem te vermos,

Onde colheste tu tanta ciência?


Depois permaneceste errando, incerto,

Meditando em contínua oração,

Preparando, sozinho, no deserto

O caminho da tua pregação.


Partiste rumo ao mar para pescar

Com redes de palavras pescadores

Acolheste-os a todos, sem cuidar

Em separar os bons dos pecadores.


Quem eras Tu, que assim se aventurava

Em abalar um mundo instituído?

Quem eras tu, Jesus, que assim falava

De um Novo Deus de amor, desconhecido?


Quem eras tu, surgido de repente

Um pobre, natural de Nazaret,

Acompanhado assim, por tanta gente,

Pregando às multidões a nova Fé?


Que o Velho Testamento transformaste

Num novo Deus, sem fúria nem vingança,

Um novo Deus de Amor, que proclamaste,

Num Novo Testamento de esperança,


Tu, que amaste as crianças com ternura,

Como eternos símbolos de pureza,

Que trilhaste os caminhos da ventura

E foste dos humanos frágil presa,


Que a fome por milagre mitigaste

Em pão que se espalhou com abundância,

Que mesmo aos inimigos abraçaste

Com idêntico amor e tolerância,


Que à mulher conferiste a dignidade

Tornando-a tua amiga e tua irmã,

Pois do seu ventre emerge a humanidade

Que faz de cada parto uma manhã,


Que morreste sozinho, abandonado

Pelo povo que foi o teu algoz,

Exangue e por espinhos cravejado

Suportando na cruz a dor atroz


Questionaste o Pai sobre a razão

De ter-te abandonado nesse instante.

E qual foi a resposta? Um trovão,

Apenas um trovão no céu distante.


Disseram que depois ressuscitaste!

Embora já de forma não terrena,

E que aos olhos daquela a quem amaste

Te mostraste primeiro: Madalena.


Mas não creio que tal seja verdade.

E tudo não passou duma visão

Daquela, para quem a realidade

Eras Tu, inda vivo: uma ilusão.


Eras tu, Jesus, o Deus que amava,

Eras tu, Jesus, a flor eterna,

A pétala da flor que não murchava

No amoroso jardim de Madalena.


E por isso te via a todo o instante

E nunca se sentia em solidão

Porque tinha guardado o seu amante

No cofre mais secreto da paixão.


Para mim nunca foste a divindade,

Aquela que não passa dum conceito,

Foste um Homem apenas, na verdade,

Foste um Homem, apenas, mas PERFEITO.


E se hoje creio em ti desta maneira

Acredita: não é por má vontade.

É por não ver a Humanidade inteira

Seguir o teu exemplo de bondade.


Morreste torturado numa cruz

Às mãos dos que querias libertar.

Mas p’ra mim tu és sempre esse Jesus

Que eu tanto gostaria de imitar!


Mas tão débil eu sou que não consigo

Ultrapassar os vícios que consomem

O difícil caminho que prossigo

À procura de ti, p’ra ser um Homem.


Por isso sinto a dor tão pertinaz

De tão perto estar de ti e tão distante,

sentir-me cada vez mais incapaz

de ser igual a ti, ou semelhante.


A minha cruz é de outra natureza

E nada tem em si de misticismo:

É a pesada cruz desta fraqueza

De não poder vencer o meu egoísmo.


E só pensando em ti me tornarei

Capaz de resistir e ser mais forte

Vencendo este percurso que encetei

No dia em que nasci até à morte.


Porque a Vida, Jesus, é mesmo assim,

Um rumo que se traça e se percorre,

Que tem sempre um começo e tem um fim:

Se tudo nasce e vive, tudo morre.


E se de nada mais tenho a certeza,

Pretendo ter ao menos a ambição

De estar conforme a minha natureza

Desta frágil e humana condição.


Do Bem e da Pureza soberano

Foste o fruto de humana concepção.

Eu apenas serei um ser humano

Incapaz de atingir a perfeição.


Se como tu não passo de um mortal

E assumo por inteiro este conceito,

Eu não sou como tu, sou desigual,

Não sou como tu foste: um ser perfeito.


E por isso te quero e te encareço

E por isso te recordo e me ajoelho

Em tributo fraterno. E reconheço

Nos teus humanos actos o Evangelho.


Fernando Peixoto

NÃO GOSTO DO PAI NATAL


Não gosto do Pai Natal
porque a mim já não me ilude:
todas as prendas que traz
dão-me cabo da saúde.

Traz no saco, que carrega,
cada vez mais sofrimento
e deixa-me logo «à pega»
baixando-me o vencimento.

Com discursatas perversas,
mil ilusões repartidas
enche o saco de promessas
que nunca serão cumpridas.

Eu não quero dizer mal
mas temos gostos opostos:
peço prendas plo Natal
e ele dá-me mais impostos.

E mal entra o Ano Novo
logo me cheira e pressinto
que eu, que pertenço ao Povo,
vou ter de apertar o cinto.

Sobe a água, sobe a luz,
e os aumentos são bem fortes
e, para aumentar a cruz
sobem também os transportes.

É pior de cada vez
que olho esse velho gaiteiro:
Já sei que vai sobrar mês
quando acabar o dinheiro.

No País em que vivemos
(somos quase 10 milhões)
Ali-Babás... poucos temos,
mas temos muitos ladrões.

Por isso é que não me ilude
este velhote atrevido:
Pai Natal é Robin Hood,
mas Robin Hood ... invertido.






Fernando Peixoto

O ANJO DEFICIENTE














Era uma vez um menino (a estória começa assim, e já não sei se a sonhei, se ma contaram a mim).
De qualquer forma, é tão gira que não deixo de a contar.
Escutem-na, pois, com atenção, que é uma estória de pasmar.



Era uma vez um menino irrequieto e teimoso. Muito rico, tinha tudo, mas era mau, orgulhoso. Não se dava com ninguém, julgava-se tão importante que até dos próprios colegas estava sempre distante. Nunca brincava com eles nem, ao menos, lhes falava. Virava as costas a todos e a todos desprezava, porque ele tinha tudo: comboios, carros, aviões, cd’s e computadores, barcos e foguetões; tinha brinquedos a esmo, tinha jogos aos montões, bicicletas, patins, tinha enormes camiões, tinha gruas, tinha barcos, violas e acordeões, tinha lindas espingardas e gigantescos canhões; tinha arcos, setas, pistolas, tinha índios aos milhões, tinha pianos, violinos, tinha gigantes e anões, bonecos articulados, elefantes e leões, tinha palhaços que riam e que davam trambolhões.


Tinha tudo este menino, tinha tanta, tanta coisa que não brincava com nada e, se alguma coisa fazia com os seus divertimentos, era parti-los em pedaços, em pequenos elementos, e não sentia a alegria que sentiam os colegas com os seus próprios inventos, os colegas que brincavam com carros de rolamentos, que jogavam à sameira nas bermas dos pavimentos, que sabiam transformar um pedaço de papel no mais saboroso invento: num avião, num batel ou mesmo num viravento, até mesmo um foguetão, e, de um pedaço de arame, faziam uma bicicleta, e da vara de um guarda-chuva faziam um arco e uma seta, com pedaços de madeira cheios de pregos e pó, bastava pôr-lhes um fio e era logo um trenó.
E o nosso menino rico que nada disto sabia, de cada vez que brincava tinha menos alegria. De facto, não precisava de pensar ou de inventar: aquilo que desejava tinha à mão de semear. E a criada, coitada, era a que mais aturava com as birras do Pedrinho que tanto a arreliava.
Até que um dia, em Dezembro, pouco antes do Natal, começaram a fazer um Presépio colossal. O Pedrinho, agitado, foi às gavetas buscar bonecos de porcelana coloridos, a brilhar.



Nossa Senhora era enorme e tinha um manto azulado de veludo, tão macio, e todo a oiro bordado.
S. José, o Carpinteiro, que tinha cabelo loiro, vestia um manto castanho também bordado a oiro. Os Reis Magos, imponentes, traziam cofres de metal e os camelos, gigantes, eram todos de cabedal. Os cordeiros, pequeninos, eram brancos como a cal e estavam todos cobertos por lã fina e natural.
A própria vaca, agachada, cheirava mesmo a jasmim, a preto e branco pintada e com cornos de marfim. O burrito era cinzento e tinha um pelo sedoso, e abanava o pescoço todo feliz e garboso. Lá no alto havia a estrela que inundava de luz (com uma lâmpada por trás) o bom Menino Jesus. O bom Menino Jesus, numa caminha deitado, sobre palhas feitas de oiro, num riquíssimo brocado.
Estavam todos tão contentes, que até se iam esquecendo de pôr o anjinho branco que do céu vinha descendo e, quando deram por ela, o Pedrinho, a protestar, pega no anjo com raiva e vai pô-lo no seu lugar. Fê-lo, porém, de tal forma, tão brusco e arreliado, que escorregou no soalho e caiu desamparado! E ao seu lado ficou o anjo feito em pedaços, com o corpo para um lado e para o outro... os dois braços!
Batendo com os pés no chão e teimando, renitente, o Pedrinho jogou fora o anjo deficiente.
O Papá ainda tentou, a Mamã ainda quis colar os braços do anjo mas, o Pedrinho, infeliz, teimoso, desobediente, não queria no Presépio um anjo deficiente. E o anjo foi para o lixo com os dois braços partidos. Em seu lugar, colocaram outro de lindos vestidos.
Entretanto, já na rua, um colega do Pedrinho viu, no caixote do lixo, os restos daquele anjinho.
Como era muito pobre, fez um Presépio em cartão, com bonecos desenhados por pedaços de carvão e aproveitou o anjinho, o tal dos braços quebrados, e, colando-os com carinho, pô-los de novo ligados. Meteu-o no seu Presépio e, como não tinha luz, para que o Menino o visse pô-lo ao lado de Jesus.

Chega a Noite de Natal e, em casa do Pedrinho, estava tudo tão contente! Estava tudo tão quentinho que até o próprio Pedrinho estava feliz, sorridente. Havia pinhões e figos, uvas-passas, rabanadas, avelãs, amêndoas e bolos e frutas cristalizadas, tortas, aletria e nozes, bolo-rei, perú, pão-de-ló, pastéis, creme, filhozes, champanhe e Vinho do Porto e bolinhos de bolina, arroz-doce, frutas várias e licor de tangerina... Ei!, tanta coisa, meu Deus! Que aquela gente nem sabia distinguir bem o sabor de tanta coisa que comia.
Mas, perto da meia-noite, quando o Pai-Natal chegava e o Pedrinho, ansioso, suas prendas aguardava... fez-se escuro como breu, foi-se a luz, num arrepio, e o Pedrinho ficou cheio de medo... e de frio.
Parou o aquecimento. Nem uns aos outros se viam. Foi-se a alegria dos rostos: dos rostos que já não riam. Não tinham uma lanterna, nem ao menos uma vela, e o Pedrinho, muito triste, veio chorar p’rá janela...

Foi então que, ao longe, viu uma luz muito brilhante para lá do seu jardim, sobre um casebre distante!


E, pé – ante - pé, saiu para ver o que se passava, donde vinha aquela luz que tanto o fascinava. E seguiu pela estrada fora. Andou, andou, e já cansado chegou, finalmente, ao casebre, todo ele iluminado!




Espreitou pela janela: e que viu ele, afinal?
Viu o colega da escola celebrando o seu Natal. Era aquele menino pobre que recolhera o anjinho, afagando o Deus Menino com infinito carinho, um Deus Menino em cartão a fingir que era Jesus, com o Anjo deficiente a inundá-lo de luz. E era tal a luz do Anjo, enchendo a casa de luz, que até parecia que o Anjo era o Menino Jesus!
Bateu à porta o Pedrinho, muito triste e arrependido. Veio abrir-lha o colega, muito alegre e divertido.
- Que fazes aqui, Pedrinho? Eu não contava contigo, mas dás-me grande alegria se quiseres ficar comigo.
O Pedrinho, arrependido, a chorar, sentidamente, ajoelhou-se e beijou o Anjo deficiente.
Foi então que o Deus Menino (que era feito de cartão) se ergueu, beijando o Pedrinho e dando-lhe o seu perdão.
As coisas simples, amiguinhos, têm sempre mais valor se as rodearmos de carinhos e de muito, muito amor.

FERNANDO PEIXOTO

PARA A MINHA FILHA


PARA A MINHA FILHA
(Na noite de Natal de 1989)



Crescemos, a Vida muda,
mudam sonhos, ambições,
mudam-se os gostos da gente
e até mesmo as ilusões.


A gente cresce, acredita
com o sentir mais profundo,
ser capaz de mudar tudo,
até mesmo o próprio mundo.
Mas esta capacidade,
que é mesmo uma virtude,
é saudável, se traduz
o querer da juventude.
Querer que move montanhas,
sobretudo se é capaz
de pôr-nos a caminhar
solidários para a Paz:
- caminho que há-de levar-nos
a derrubar todo o muro
que nos impeça de sermos
mais felizes no Futuro.

É importante, porém,
manter acesa a esperança
que nos bailava nos olhos
quando éramos criança,
manter acesa a alegria
do correr e do saltar,
redescobrir o prazer
que tínhamos ao brincar,
quando um pedaço de pano
era um vestido elegante,
quando um boneco de trapo
era um anão ou gigante,
quando o herói duma estória
era um cavaleiro andante
encantado pela bruxa
feia e má, horripilante.


E assim os dias passavam
na vertigem dum instante
e a noite vinha, escondida
em mistério excitante
até que a manhã trouxesse
um sol de novo radiante.

Pega, pois, nesta boneca,
cobre com ela a distância
que agora já te separa
do mundo da tua infância,
fala com ela, e ouvirás
que te responde tão bem
que até parece que a voz
é de ti mesma que vem.

Muitas vezes num brinquedo
da mais terna ingenuidade
se esconde todo o segredo
da nossa felicidade.
É que, brincando, se vive
a vida com mais doçura,
construindo, dia a dia,
um mundo com mais ternura.

Domingo, Dezembro 02, 2007

TESEU


(Ariadne)

Quando se ergue a manhã, tu sais de Atenas
rumando ao labirinto da cidade,
buscando, mais que Zeus, a liberdade
do ontológico Ser, que és tu apenas.



Na trirreme do sonho vais a Creta
lançar ao Minotauro o desafio
da Vida, que tens presa por um fio,
numa luta de morte, franca, aberta.



Mil fantasmas navegam ao teu lado
provindos do Hades da incerteza,
fracturando-te os nervos e a destreza
com que enfrentas o mar encapelado.

Mas nas cores que trazes nos teus olhos
(duas obsidianas em lampejo)
reflecte-se o indómito desejo
de vencer touros, deuses, mil escolhos.
Com hidromel e passas de Corinto
Ariadne te espera, pra te dar
um fio que permite desvendar
de Dédalo o enorme labirinto.

Só morto o Minotauro hás-de alcançar,
seguindo o rumo dos teus próprios passos,
sem receios de quedas nem fracassos,
o belíssimo Olimpo... e lá sonhar !

Serás, Teseu, então, maior que Zeus,
um pedaço de cosmos, que se agita
no útero do Universo em que gravita:
_ Serás apenas Tu... e serás Deus !





fernando peixoto

OS METECOS



Vendem o efémero
a preço de saldo
agitam quimeras na publicidade
e a gente adormece
a fingir que esquece
no sonho comprado
por menos de metade

São negociantes
digladiando apelos
traficando o sonho
de um dia diferente
São comerciantes
manchando a paisagem
dum colorido exótico
que se vende ao quilo

São récua marchando
nos trilhos abertos
pela procissão
levam o bridão
preso pela rédea
com que o cidadão
puxa a classe média
Vão cantando em coro
estranhas melopeias
de salmos e hosanas
vomitando colcheias
bem gregorianas

Pregadores da usura
vendem ilusões
são felinos vorazes
primos dos mabecos
uivam e ladram
sempre em cantochão

SÃO OS METECOS
Fernando Peixoto